Flecha, céu, quente

Ler poema Flecha, Céu, Quente: Sinais
Summer evening in Marnau - Alexej von Jawlensky

Não sei escrever se não em segredo, mensagens que se elevam com o queimar do incenso. Eu queria escrever flecha, que rasga o céu e não para até chegar ao seu destino, certeira e quente. 

O que acontece na realidade é que as palavras dançam e flutuam nesse espaço que não nomeio, espaço que é possível em sonhos e que se estende delicadamente, espaço que se move com o movimento dos astros  e me acorda para o dia, enquanto te leva pelas mãos através da noite entre prados extensos, onde fui deixando sinais para você chegar até mim. 

Se fosse flecha te diria vem, de mãos estendidas. Quente, certeira, que rasga o céu e acerta em cheio. Se fosse flecha te diria fica, com as mãos envoltas na sua. Quente, certeira, que rasga o céu e acerta em cheio. Se fosse flecha te diria sente, as mãos repousam juntas no coração. Quente, certeira, que rasga o céu e acerta em cheio.

Não sou flecha, sou somente sinal. Curva sinuosa entre montanhas de significados, continuamente velando o horizonte e a palavra final. Como se somente de retornos se faça o encontro, a repetição que é refinada em cada ato e alcança o intervalo perfeito. Quando meu olhar fita o teu e não existe tempo verbal para concordar. Quando teu olhar fita o meu e tudo se faz queda e contemplação, preenchimento, o nosso olhar que perdura inteiro, quente, certeiro, que rasga o céu e acerta em cheio. 

No caminho reverso eu que te busco em sinais e pausas, na folhagem densa de tua voz de flor noturna, densidade que trepa nas arestas do sono e lentamente segue inudando meu corpo, cômodo por cômodo; uma flor que brota na ponta dos dedos com a intenção de tocar a face; duas flores nos lábios que depois de sorrir se aproxima e beija os olhos e procurando os lábios, percorre os poros para sugar-lhes por inteiro; oito flores no peito que se abrem em sincronia e avançam em sua direção, sem impedimento.

Te sonho e registro no fundo dos olhos a cor de sua presença. Se fosse flecha te diria sua voz me chama, mãos de flores que querem tocar. Quente, certeira. Se fosse flecha te diria dança comigo bem junto, braços de ramas e flores que querem abraçar. Quente, inteiro. Se fosse flecha te diria entra, pés soleira de flores que convida. Quente, aberta, certeira.

Ser esse espaço, a flecha, sua voz me chama e me faz querer dançar no infinito, a direção que tantas vezes é clara, quente, certeira, que rasga o céu e acerta em cheio e depois dorme no absurdo. Sonho flor no ouvido, sua voz quente, seiva, saliva. Sonho de cômodos inundados, sua voz de flor noturna dança comigo. Ser o espaço que dorme no absurdo, sua voz me chama, sono flor, dança comigo.